domingo, 28 de fevereiro de 2010

- Bem vinda a minha vida


"O céu e o inferno estão bem aqui, atrás de cada parede, cada janela. O mundo por trás do mundo."
(John Constantine)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Duelo

Dia desses sai de casa pensando na morte. Clara e com várias cores. Atravessei a rua e ela veio do lado, apressada. Nem notei sua presença, continuei no mesmo ritmo desanimado.
Ela se enfureceu e jogou pra cima de uma senhora um golf branco com a lataria perfeita. No duelo com a vida que insistia em querer vencer, a morte levou o prêmio.
Vendo tudo aquilo, percebi que a morte não é pra mim não. É rápida demais.
Sai dali pensando, na vida. Escura e vazia, é mais doída.


Palavras Que Não Existem

De repente, não mais que de repente, fez-se óbito do que estava doente. Fez-se da dor maior o pedaço do inferno que faltava. Fez-se do riso o descontente.
De repente, não mais que de repente, fez-se do que vistes, o caminho para o abismo.
Fez-se do inesperável, o desespero. E desse fez-se o impulso.
Os olhos que vidraram a cara lavada no espelho, passaram um filme em um segundo. Um ritmo descompassado de notas que não existiam compuseram a sinfonia da história do fim do mundo.
Palavras que não existem descreveriam aquele som mudo.
O que o copo já vazio guardava, desceu rasgando. Como faca me cortando a garganta. E então fez-se o início do fim.
Ai faltou sentido, faltou chão, faltou razão. E da emoção que sobrava no peito fez-se a vida-sem-vida, fez-se a dor também muda, e de tão grande, absurda que por sua vez de seu transbordar fez-se o silêncio, a lágrima, o grito.
- Calem-se palavras que não existem! Nada mais são de que a minha setença de que sem ele eu me perdi.
Sentiu como se a vida tivesse sido roubada de ti, era um crime. Mas era ela a criminosa, sabia que ia pagar.
E mais uma vez, pois não bastou uma, faltou também a luz. Mas isso fora até um ponto de alívio; com a dor aprendera sobre a verdade, mas fora com o tempo que aprendera a esconder o descontentamento.
Assim, passou a chorar só no escuro, na solidão. E por isso não o temia - era também a sua libertação.

(Sorte dos amores e amantes que não provarem a desventura dessas palavras que não existem.)

Museu de Grandes Novidades

Enquanto todos tem reclamado sobre como o tempo tem passado rápido, eu tenho parado e pensado em como o meu tempo se arrasta devagar. Dias e noites passam quase em branco, sem nenhuma novidade para contar, passam tão sem graça, que eu olho pro relógio mas a hora não passa. Minha distração é escassa, meu cotidiano não se inova, todo dia é como um museu de grandes novidades, evito o tédio me distraindo com aleatoriedades, bobagens. Estranho como não me encaixo na vida que levo, preciso de uma válvula de escape pra essas minhas agonias que me tormentam, dia sim, outro também... Preciso de inspiração pra ganhar dinheiro, conhecer o mundo inteiro, ao invés de continuar aqui, onde eu nem ao menos gosto de estar, procurando uma agulha em um palheiro.
Desgraças na TV o dia inteiro, ninguém mais sabe o que é errado e o que é direito, todos caminham na direção do que julgam ser verdadeiro, obedientemente seguem todos dias suas vidas como um rebanho de carneiros. Não quero minha vida igual ao que vejo, é muito menos do que mereço, está bem longe do que eu desejo.
Nem tanto, nem tão pouco, apenas o necessário para preencher esse oco. Nem tanto, nem tão pouco, apenas o necessário para que eu não me afogue nesse sufoco. Vivendo em meio a essa submissão em um mundo doente, onde o mais sensato é julgado como retardado, e o "normal" é mais um entre tantos que também sofreu uma lavagem cerebral.
O imprevisível me agrada muito pra eu me contentar com essa monotonia, detesto essa dependência da rotina. Eu que me julgo com tanta autonomia, não vou fazer parte dessa massa doentia. Não irei para a mesma direção em que o mundo caminha. Detesto a normalidade, essa falsa identidade que tanta gente carrega por ai. Sou escrava da minha intensidade, da minha ansiedade, e acredito que de alguma maneira tudo o que acontece nessa vida ou é bom ou se tornará um dia.
Há uma distância enorme entre o meu mundo e o seu, bem mas isso, isso já é uma outra história.