De repente, não mais que de repente, fez-se óbito do que estava doente. Fez-se da dor maior o pedaço do inferno que faltava. Fez-se do riso o descontente.
De repente, não mais que de repente, fez-se do que vistes, o caminho para o abismo.
Fez-se do inesperável, o desespero. E desse fez-se o impulso.
Os olhos que vidraram a cara lavada no espelho, passaram um filme em um segundo. Um ritmo descompassado de notas que não existiam compuseram a sinfonia da história do fim do mundo.
Palavras que não existem descreveriam aquele som mudo.
O que o copo já vazio guardava, desceu rasgando. Como faca me cortando a garganta. E então fez-se o início do fim.
Ai faltou sentido, faltou chão, faltou razão. E da emoção que sobrava no peito fez-se a vida-sem-vida, fez-se a dor também muda, e de tão grande, absurda que por sua vez de seu transbordar fez-se o silêncio, a lágrima, o grito.
- Calem-se palavras que não existem! Nada mais são de que a minha setença de que sem ele eu me perdi.
Sentiu como se a vida tivesse sido roubada de ti, era um crime. Mas era ela a criminosa, sabia que ia pagar.
E mais uma vez, pois não bastou uma, faltou também a luz. Mas isso fora até um ponto de alívio; com a dor aprendera sobre a verdade, mas fora com o tempo que aprendera a esconder o descontentamento.
Assim, passou a chorar só no escuro, na solidão. E por isso não o temia - era também a sua libertação.
(Sorte dos amores e amantes que não provarem a desventura dessas palavras que não existem.)