Era gordinha. Gordinha, baixa e feia quando era tempo de meninas magras, altas e bonitas. Bonitas, patifaria..
Que graça que havia de ter naquilo?
O sofá da sala lotado de magrelas, discutindo nada mais interessante que vestidos. Chatas.
- A menina da graça é feinha! Tadinha... Não haverá de caber nesse vestido, todas sabem!
Riam.
Vestido... Iria mesmo de chapéu e meias, claro.
Até o relógio estava entediado, bocejava. Arrastava lento os ponteiros. Não era como um tic, tac, tic, tac. Ela ouviu tic... tac... tic... tac...
Mas assim mesmo, avançava as horas, mesmo que cansado. Ela deveria fazer o mesmo.
Entrou na sala, o sofá em L fazia analogia às moças sentadas. Pareciam um L, magrelas e aqueles pés secos e grandes. Riu. Pareceu um grunhido. E a vingança das moças foi rirem dela. E imitaram o barulho.
- Parece um porco!
Gritou uma que sentava na ponta do sofá.
O relógio parou. O peixe do aquário parou. A música silenciou. Todos pararam por um instante para assistir sua revolta. Isso se houvesse alguma. Só não pararam as magrelas, quem riam e riam.
Apenas uma delas não ria. Observava. Aquela criatura estranha, gorda, que grunhia, de chapéu de abas preto e meias azuis. Meias azuis! Quem é que usava meias azuis? Olhar de condenação sob a menina.
- Tônia, você vai usar esse vestido, deverá ficar bem nesse corpanzil esbelto.
Riram de novo. Ela chocou-se. Não iria usar vestido, já havia dito.
- Cuidado para não cortarem você, ao invés do bolo!
Gargalhadas agora.
- Eu disse antecipadamente que não usaria vestido algum. Tenho meu chapéu e minhas meias azuis.
- Ela é retardada. – Cochichou uma.
Ela ouviu e olhou desafiando. Era baixa, mas era forte. Talvez pudesse fazer um strike nos 5 pinos a sua frente. Bastava que ficassem de pé e...
- Tônia, ponha seu vestido, precisará de ajustes talvez.
- Ajustes? Como poderá sobrar pano para ajustes?!
Já estava cansada, o relógio a fitava. E que mulher horrenda era Cristina, suas mãos de veias saltitantes e os olhos grandes e fundos. Mas era má, sabia ser.
Pegou o vestido das mãos secas, e foi toda gorduchinha ao toilet . Foi apesar de cansada, saltitante.
- A casa vai cair...
Engraçada...
Tirou a calça com enorme esforço, Graça sua mãe, só lhe dava roupas apertadas. Como lhe esmagava aquilo da mãe querer uma filha igual à de todo mundo. Se era sua filha, não poderia ser igual.
E ela era mais bonita, sabia disso. Mas não bastava que soubesse.
A blusa de lã mista e xadrez, saiu mais fácil. Era larga até em seu corpo rechonchudo.
- Ufa!
Aliviou-se, nua era melhor. Ela sairia nua se a deixassem. Agora devia por o vestido.
Sem tirar as meias azuis, foi colocando- o devagar. Nada poderia dar errado. Seria mais um motivo de piada.
Entrou, até que enfim. Mas não ficou bem com o chapéu, era contraste demais. Tirou o chapéu então, a testa estava até marcada, porque ela nunca o tirava.
Com um pente em cima do armário, todo cheio de fios castanhos, penteou seu cabelo longo e encaracolado. Havia esquecido que bela cor eles tinham! Louros e fortes, mas não amarelos e pálidos; eram dourados! Cachos dourados e longos.
Os olhinhos pequenos vibravam. A bochecha rosada se erguia pelo movimento sorridente dos lábios carnudos.
- Eu estou linda! Estou linda!
Ela não havia percebido o quanto era bonita e, mais moça que as outras. O vestido despropositadamente deixou-lhe com um decote inocente, nunca descoberto. Abriu a porta, radiante. Era luz, no olhar, nos cabelos, no andar.
Perplexas as garotas deveriam admitir com seus olhares surpresos.
Ela estava bonita, e pior, mais bonita que elas. Que vestiam o mesmíssimo traje, todas achatadas.
- Tônia, você está... – rodava em volta da menina – Linda!
Como poderia? Há minutos riam dela, agora ela era a nova rainha. Que deveria fazer? Contar piadas?
Nada. Não faria nada. O relógio a sorria, o peixe deu um pulinho. Que momento, que alegria!
Nunca tinha ouvido alguém dizê-la que era linda, nem mesmo a mãe.
As meninas nada disseram. Mas também, quem as queria ouvir. A sentença vinha de Cristina, isso era tudo.
E as meninas não riam, ela sabia o quanto isso significava.
E sua surpresa; ninguém reparou nas meias azuis. Ninguém deu um piuzinho sequer sobre as meias.
Sentou-se no sofá, tirando-as. As meninas foram se apertando, recalcadas fitando as pernas dela. Eram muito bonitas.
Afinal ela não era gorda, não mais. Era uma mulher, voluptuosa e bela.
Sem meias, sem medos, levantou alegre, saltitante.
A perplexidade agora estava clara. Não precisava mais de suas meias. Era inteira.
Não era mais uma menina com um vestido. Era uma mulher com seu amante.