La vie en rose ao fundo mas sua vida não é nada parecida com a poesia que romantiza a noite. E lá estão, os olhares mais perdidos do mundo, tão direcionados para o nada, tão capturadores de tudo.
Seu vestido era nude e havia um profundo decote nas costas, eu quase podia ver o que escondia por trás do fino tecido que caia por seu corpo. A maquiagem era a mesma de todas as quintas-feiras, o mesmo batom cereja manchava o contorno da fina taça que lhe aliviava como um analgésico. Chamava assim:
- Mais uma injeção de ânimo por favor!
Suas palavras tropeçando só me remetiam a certeza de sua infelicidade, parecia uma daquelas mulheres de filmes antigos, tão tristes com seus martinis e um cigarro na mão. Tão despreparadas e inseguras aprisionadas em sua própria solidão, independente de terem companhia ou não.
Um piano bar logo atrás, olhares masculinos especulativos uma triste bela dama estão a admirar, seus belos trajes, leves toques, finos traços a desnortear.
- O que está olhando, rapaz! Eu pedi mais um...
- Dry Martini, é claro, senhorita Martina.
- Então não fique me olhando como um tolo e sirva-me.
Ao seu lado estava um homem elegante, um perfeito cavalheiro com seu paletó preto, vodka com rum era seu drink preferido, amor perfeito.
- Senhorita Martina... Deve ser por isso que gosta tanto desse drink.
- De que importa o que gosto e o que não gosto, faço isso todas as semanas só por comodidade, aliás, um estranho interferindo na minha intimidade? Como se atrave?
- De que importa o meu atrevimento se a minha certeza de que par melhor não haverá para dançar com os braços meus é bem maior? Conceda-me essa dança, Senhorita Martina?
- Se mover os pés tão bem quanto uma conversa com uma estranha Sr...?
- Joseph, Joseph Lincoln senhorita.
Pela noite toda dançaram, como se fossem o único casal no salão. O ar de tristeza dera espaço a um lindo sorriso, expressão que sua face nunca mostrará.
Incontáveis drinks e inigualáveis olhares, se perderam de repente sem nenhum adeus. Procurou seu par por toda a noite, e foi em uma solitária caminhada que voltou para sua casa, e de sua casa para o mesmo balcão.
- O que está olhando, rapaz! Eu pedi mais um...
- Dry Martini, é claro, senhorita Martina.
- Então não fique me olhando como um tolo e sirva-me. Ora, veja só, o atendimento nesse balcão não é mais o mesmo.
Não é mais o mesmo. Nunca mais será. Agora seus trajes tão mal cuidados, o delineador borrado e nada elegante se junta as marcas em seu rosto que o tempo cuidou de lhe apresentar. Seus lábios mais finos que outrora, a voz talvez menos doce, o olhar talvez menos esperançoso e ainda a mesma fumaça em sua volta.
O tempo é tudo o que nos tornamos.
Ela apenas mais uma mulher mal amada, desiludida e ainda iludida com a volta de seu amado, destinada a sozinha ficar. E eu, mais um a desejar, que fossem eternos e felizes, todos aqueles amores que começam em um balcão de bar.
"Hold me close and hold me fast

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