quarta-feira, 30 de março de 2011

La vie en rose




La vie en rose ao fundo mas sua vida não é nada parecida com a poesia que romantiza a noite. E lá estão, os olhares mais perdidos do mundo, tão direcionados para o nada, tão capturadores de tudo.
Seu vestido era nude e havia um profundo decote nas costas, eu quase podia ver o que escondia por trás do fino tecido que caia por seu corpo. A maquiagem era a mesma de todas as quintas-feiras, o mesmo batom cereja manchava o contorno da fina taça que lhe aliviava como um analgésico. Chamava assim:
- Mais uma injeção de ânimo por favor!
Suas palavras tropeçando só me remetiam a certeza de sua infelicidade, parecia uma daquelas mulheres de filmes antigos, tão tristes com seus martinis e um cigarro na mão. Tão despreparadas e inseguras aprisionadas em sua própria solidão, independente de terem companhia ou não.
Um piano bar logo atrás, olhares masculinos especulativos uma triste bela dama estão a admirar, seus belos trajes, leves toques, finos traços a desnortear.
- O que está olhando, rapaz! Eu pedi mais um...
- Dry Martini, é claro, senhorita Martina.
- Então não fique me olhando como um tolo e sirva-me.
Ao seu lado estava um homem elegante, um perfeito cavalheiro com seu paletó preto, vodka com rum era seu drink preferido, amor perfeito.
- Senhorita Martina... Deve ser por isso que gosta tanto desse drink.
- De que importa o que gosto e o que não gosto, faço isso todas as semanas só por comodidade, aliás, um estranho interferindo na minha intimidade? Como se atrave?
- De que importa o meu atrevimento se a minha certeza de que par melhor não haverá para dançar com os braços meus é bem maior? Conceda-me essa dança, Senhorita Martina?
- Se mover os pés tão bem quanto uma conversa com uma estranha Sr...?
- Joseph, Joseph Lincoln senhorita.
Pela noite toda dançaram, como se fossem o único casal no salão. O ar de tristeza dera espaço a um lindo sorriso, expressão que sua face nunca mostrará.
Incontáveis drinks e inigualáveis olhares, se perderam de repente sem nenhum adeus. Procurou seu par por toda a noite, e foi em uma solitária caminhada que voltou para sua casa, e de sua casa para o mesmo balcão.
- O que está olhando, rapaz! Eu pedi mais um...
- Dry Martini, é claro, senhorita Martina.
- Então não fique me olhando como um tolo e sirva-me. Ora, veja só, o atendimento nesse balcão não é mais o mesmo.
Não é mais o mesmo. Nunca mais será. Agora seus trajes tão mal cuidados, o delineador borrado e nada elegante se junta as marcas em seu rosto que o tempo cuidou de lhe apresentar. Seus lábios mais finos que outrora, a voz talvez menos doce, o olhar talvez menos esperançoso e ainda a mesma fumaça em sua volta.
O tempo é tudo o que nos tornamos.
Ela apenas mais uma mulher mal amada, desiludida e ainda iludida com a volta de seu amado, destinada a sozinha ficar. E eu, mais um a desejar, que fossem eternos e felizes, todos aqueles amores que começam em um balcão de bar.

"Hold me close and hold me fast

The magic spell you cast
This is La vie en rose

When you kiss me heaven sighs
And tho I close my eyes
I see La vie en rose

When you press me to your heart
I'm in a world apart
A world where roses bloom

And when you speak...angels sing from above
Everyday words seem...to turn into love songs
Give your heart and soul to me
And life will always be
La vie en rose"

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