sexta-feira, 12 de março de 2010

Et Cetera


Gosto de ver a paisagem mudando, sendo deixada para trás pela janela do assento ao contrário do ônibus. Faço isso todos os dias. Deixa essa coisa de rotina um pouco mais filosófica, mais bonita. Fico vendo as coisas mudando, enquanto o tempo muda também. O calor está deixando aos poucos a terra da garoa, e já é tempo.
São nos dias de frio que os corpos precisam de outros para se aquecerem. São nos dias de frio que as mentes precisam de algo mais para não enlouquecerem. Os dias quentes são mais fáceis, mais felizes. Os dias de frio dão a sensação que tenho por dentro agora. Fazem mais sentido para mim.
Eu fico me sentindo como em um seriado americano que não existe, onde nada acontece. Agora eu sei como fazer as mesmas coisas todos os dias se iguala a nunca fazer nada. Você acaba ficando entediado e infeliz com a sua rotina, e acaba perdendo a noção das horas e dos dias.
Estranho como não me encaixo na vida que levo. Estranho como todas as respostas para as minhas perguntas parecem estar erradas. Estranho como o vazio me preenche como se estivesse absoluta de tudo, não deixando espaço para mais nada. Estranho a maneira como as coisas fazem e não fazem sentido. Estranho essa coisa de imaginar mil coisas e não tirar nunca uma da cabeça. Estranho gostar de escutar as músicas se repetindo.
Acho que eu não vejo a vida como deveria; me sinto como um deficiente em um parque de diversões. Me sinto impotente, me sinto dependente. E realmente não me sinto bem.
Eu não vejo sentido nas coisas que as pessoas vêem, não acho graça do que eles riem. Não entendo o porquê e do quê tem pressa, não me interesso pelo o que lhes interessa.
Vejo como uma grande responsabilidade entrar em um cenário de dementes e sobreviver. Parece que a maioria das pessoas não se importam muito com o meio das coisas, mas vivem procurando explicações para seu fim. Isso não faz muito sentido para mim. Eu não acho que o fim seja tão importante, mas as pessoas sim.
Poucos irão perguntar como você viveu, mas certamente muitos irão querer saber como você morreu. Acho que a única coisa que se encaixa no início, meio ou fim da vida é a solidão. De alguma maneira, estamos sempre sozinhos porque ela nos obriga a isso. Essa é sua lei mais cruel.
E em seu meio, as pessoas continuam sendo marionetes quando poderiam ser grandiosas. Não passam de demônios que sonham com a divindade.
E talvez a vida seja mesmo assim, e eu não tenho um bom fim para isso.
E por isso, provavelmente ninguém irá gostar desse texto. Afinal, para todos o desfecho é sempre mais importante que o meio.
Mas ao menos, ao contrário da maioria de todas as outras pessoas que como eu, fazem as mesmas coisas todos os dias, eu tenho outras coisas com que me importar.
E talvez a vida não faça sentido porque não haja sentido na vida. Talvez não haja mesmo uma razão para viver e viver seja a razão. 

Talvez eu pare mesmo de me questionar, porque talvez, não haja mesmo salvação para a doença do mundo. E talvez, seja por isso que os dias são longos mas os anos são curtos.

"E ao contrário da maioria de todas as outras pessoas que como eu, fazem as mesmas coisas todos os dias, eu ainda acredito que todos temos um pedaço do céu."

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