quarta-feira, 29 de setembro de 2010

- Vera felicitas innocentia est

- Não entendi...
- A ignorância é uma benção.

Minha mãe costumava dizer que eu me inspirava nos passos de meus ídolos. Clarice Lispector; escritora favorita. Nascida no Acre, bonita, elegante e culta. Minha mãe dizia que ela aparentava ter muitos amantes, e eu também achava.
E Clarice pensava demais. Pensava muito mesmo, como se não restasse mais nada dotado de grande importância além do próprio pensamento. Pensava tanto, que deve ter morrido de tanto pensar.
Cazuza, poeta e cantor preferido. Carioca, morreu jovem. Bebia, fumava, ria e se apaixonava demais. Vivia demais. E deve ter morrido de tanto viver, certamente. E eu gosto de dizer; viver, mata.
Beethoven, o grande ídolo. Alemão, aspecto rude e instropectivo. Viveu muito para sua época. E Beethoven amava a música, muito mesmo. Se dedicou tanto a ela, sua paixão, que não dava atenção para outras necessidades como suas higienes básicas, e perdeu sua audição por isso.
O amor é o sentimento mais idiota que existe, e todo apego tem seu preço. O dele foi sua própria vida. Beethoven morreu de tanto amar a sua arte.
Norma Jeane, rotulada como símbolo sexual dos anos 60 e 70. Desejada e subestimada. Queria ser grande, muito maior do que o modo como as pessoas a viam. Ela se fantasiou de Marilyn Monroe para ocupar um papel que não lhe pertencia, e Marilyn se perdeu por querer demais. Querer demais o que não lhe foi dado, e talvez, até tenha sido tirado, roubado o direito de ter.
Norma Jeane morreu querendo ser Marilyn Monroe, E Marilyn morreu porque queria demais.
Todos os meus ídolos já morreram, de pensar demais, viver demais, amar demais, querer demais. E é disso que eu morro todos os dias.
Porque a falta de raciocíonio induz ao erro, mas o excesso reduz suas margens. A falta de vivacidade adoece a mente, o corpo e o espírito, mas o excesso ensina. A falta de ambição empobrece um homem, mas o excesso o ajuda a alcançar seus sonhos. E a falta de amor, bem... Como diria Cazuza; "amor demais não atrapalha. Um filho rejeitado nunca conserta a cabeça. Um superprotegido tá limpo."
Excesso de amor protege. Mas quem olha por alguém pobre de amor?
Sempre preferi qualquer excesso à escassez, ao meio-termo. O meio-termo, o café meio quente, me incomoda. A sobra é mais favorável que a falta.
Já diria Ahmad, o ambicioso dá passos maiores que as pernas;
- Passos maiores Bella, nunca menores. Você pode chegar aonde quer, ou se rasgar toda. Mas você tentou.
E o que fazer além de tentar? É o único meio de sobrevivência que nos é dado. Tentar ter um bom dia, tentar chegar em casa, tentar ter uma vida, um amor. Tentar ter dinheiro, conhecimento, tentar apagar uma dor.
A vida é a tentativa do sucesso ou a conquista do fracasso. Uma sucessão de erros e acertos seguidos de seus fins, assim como todo fim é uma reta de tentativas que acabou. Tudo acaba e começa outra vez. E para quem não aprendeu, começa exatamente igual, tudo de novo.
É inspirador, ouvi dizer que as borboletas não vivem mais de 24 horas. Tanto tempo de cuidado e trabalho da natureza e então uma criatura linda se faz. E morre nela mesma em um dia. Acho que isso me induz à ironia da vida, e a breve duração da felicidade. Esteriótipo de vida perfeita mais que visado e chiclê, antigo desejo coletivo, de toda a humanidade. Desejo estúpido e inalcansável.
E a reta de tentativas se faz justificada; pela procura da felicidade que está presente em todas as mentes, ansiosas pelo começo do final feliz.
A vida, talvez, seja uma procura de como é narrado o fim. Porque procuramos sentido e o final junta todos os pontos. E eu ouvi falar por ai, que santifica.

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